{"id":121,"date":"2020-04-09T01:43:00","date_gmt":"2020-04-09T04:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/fbvm.org.br\/?p=121"},"modified":"2024-06-10T11:42:46","modified_gmt":"2024-06-10T14:42:46","slug":"mulheres-relativismo-e-guerra-do-afeganistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fbvm.org.br\/?p=121","title":{"rendered":"Mulheres, relativismo e guerra do Afeganist\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mulheres, relativismo e guerra do Afeganist\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antigo aforismo de autoria desconhecida dizia que, na guerra, a primeira v\u00edtima \u00e9 a verdade. Pensadores do calibre de Nietzsche, num contundente relativismo (que permite a coexist\u00eancia de m\u00faltiplas verdades), decreta que \u201cn\u00e3o h\u00e1 fatos, apenas interpreta\u00e7\u00f5es\u201d. H\u00e1 quem diga que em vez de fatos, o ilustre fil\u00f3sofo alem\u00e3o queria dizer, de fato, verdades. Humpty Dumpty, personagem de Lewis Carroll (no livro Alice atrav\u00e9s do espelho), chega ao extremo de dizer que as palavras significam aquilo que ele queira que elas signifiquem. Pode ser assim, ou assado, conforme se lhe d\u00ea na telha, numa esp\u00e9cie escolha arbitr\u00e1ria entre m\u00faltiplas e poss\u00edveis outras significa\u00e7\u00f5es, t\u00e3o leg\u00edtimas umas quanto outras eventualmente selecionadas. Refutando o questionamento de Alice a tal compreens\u00e3o, Humpty Dumpty justifica-se alegando que at\u00e9 paga sal\u00e1rio \u00e0s palavras utilizadas por ele na elabora\u00e7\u00e3o de seu intrigante discurso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1298\" height=\"846\" src=\"https:\/\/fbvm.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/mulheres.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-122\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Foto:<\/strong> Site Freepik<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Numa situa\u00e7\u00e3o de guerra, ou numa vis\u00e3o mais ampla, de conflito geral, instaura-se uma cacofonia delet\u00e9ria, em vez de uma desejada harmonia entre eventuais conflitantes. O transcurso e aparente finaliza\u00e7\u00e3o, da \u00faltima guerra do Afeganist\u00e3o, \u00e9 uma evid\u00eancia a ser considerada. Os pensadores e os meios de comunica\u00e7\u00e3o de todo o planeta se debru\u00e7am em suas esta\u00e7\u00f5es de trabalho na tentativa de achar uma vers\u00e3o para os graves acontecimentos dos \u00faltimos vinte anos (na verdade seriam trinta anos, caso fosse computado o per\u00edodo da ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, que durou pouco mais de uma d\u00e9cada). Mas essa \u00e9 apenas mais uma vers\u00e3o cacof\u00f4nica a turvar o cen\u00e1rio de tantos fatos e tantas verdades coexistentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pontualmente, um consenso se apresenta a quase todos os observadores, a quest\u00e3o das mulheres, em seu papel de v\u00edtimas passadas, presentes e futuras, numa ordem que define com rigor o que \u00e9 ser mulher e aquilo que elas podem, ou n\u00e3o, fazer de suas vidas numa sociedade tribal regida por princ\u00edpios religiosos. A burka \u00e9 seu s\u00edmbolo mais evidente e consp\u00edcuo. A viol\u00eancia sobre o corpo das mulheres, no entanto, n\u00e3o \u00e9 monop\u00f3lio afeg\u00e3o. Em in\u00fameras sociedades africanas, a mutila\u00e7\u00e3o genital feminina \u00e9 regra da qual n\u00e3o se escapa. A Anistia Internacional j\u00e1 detectou situa\u00e7\u00f5es em que migrantes africanos, n\u00e3o podendo mutilar suas crian\u00e7as e adolescentes em territ\u00f3rio europeu, simplesmente retornavam a suas tribos de origem alegando visita familiar e, por interm\u00e9dio da pr\u00f3pria m\u00e3e, av\u00f3, e outras matriarcas tribais, promoviam essa viol\u00eancia \u00e0s v\u00edtimas inocentes. Certo \u00e9 que se no Afeganist\u00e3o as mulheres tamb\u00e9m sofrem a mesma agress\u00e3o, n\u00e3o se h\u00e1 que justificar a repulsiva brutalidade na \u00c1frica, a pretexto do respeito ao fanado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para fugir da necessidade de se condenar a viola\u00e7\u00e3o de direitos das mulheres, que s\u00e3o universais, movimentos sociais de pautas feministas preferem recolher-se ao sil\u00eancio obsequioso de evidente cumplicidade f\u00e1tica com os agressores. Veja-se que no dia seis de fevereiro, dia internacional de combate \u00e0 pr\u00e1tica da mutila\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se sabe de qualquer ades\u00e3o nas Casas Legislativas, ou no Judici\u00e1rio, ou no Executivo, em condenar o nefando costume. Talvez, como desdobramento dos resultados da guerra do Afeganist\u00e3o, as preocupa\u00e7\u00f5es ampliadas com o destino das afeg\u00e3s, possam criar uma cobertura de solidariedade para as mulheres de todos os lugares, seja na \u00c1sia Central, seja na \u00c1frica, seja no Oriente M\u00e9dio e, at\u00e9 na Europa, para eliminar a abomin\u00e1vel pr\u00e1tica. O relativismo, como princ\u00edpio de organiza\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o pode afrontar direitos humanos que s\u00e3o absolutos. Caso ele prevale\u00e7a, as diferentes sociedades humanas podem vir a testemunhar o surgimento de canibalismo, afronta inaceit\u00e1vel para as civiliza\u00e7\u00f5es existentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mulheres, relativismo e guerra do Afeganist\u00e3o Antigo aforismo de autoria desconhecida dizia que, na guerra, a primeira v\u00edtima \u00e9 a verdade. 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